A saúde no Brasil vive um dos momentos mais complexos e ao mesmo tempo mais férteis, da sua história recente. Pressões financeiras, consolidações de mercado, mudanças regulatórias e uma onda intensa de inovação tecnológica estão redesenhando o setor. Para entender esse cenário em profundidade, o Futuro Talks recebeu Romeu Domingues, médico, empreendedor e conselheiro de algumas das principais organizações de saúde do país.
Nesta conversa, Romeu compartilha uma leitura realista e otimista sobre o presente e o futuro da saúde no Brasil, passando por sustentabilidade, tecnologia, health techs, fusões, inteligência artificial e novos modelos de cuidado.

Um setor essencial, mas estruturalmente tensionado
Segundo Romeu, a saúde é um negócio difícil em qualquer lugar do mundo. Não existe um modelo perfeito. Os Estados Unidos, por exemplo, gastam mais de 4 trilhões de dólares por ano, cerca de 25% do PIB, e ainda assim convivem com insatisfação, ineficiência e desperdício. Já países europeus gastam menos (entre 9% e 11% do PIB) e apresentam melhores indicadores de expectativa e qualidade de vida, mas enfrentam filas e limitações de acesso a exames e procedimentos.
O Brasil, por sua vez, vive uma dualidade clara. No setor privado, quem tem plano de saúde encontra boa tecnologia, médicos qualificados e um cuidado altamente personalizado, algo raro em outros países. No sistema público, o SUS é referência mundial em vacinação, transplantes e atenção primária, mas sofre com gargalos de acesso a especialistas e exames.
Essa desigualdade estrutural é um dos grandes desafios do setor.

Consolidação, endividamento e o freio nos investimentos
Nos últimos anos, o Brasil passou por uma forte onda de consolidação na saúde, impulsionada por juros baixos, IPOs e maior apetite ao risco. Grupos cresceram via fusões e aquisições, ampliaram operações e assumiram dívidas relevantes.
Esse contexto afetou tanto empresas quanto operadoras de saúde, que acumularam prejuízos operacionais, aumentaram glosas e estenderam prazos de pagamento. O resultado foi uma “tempestade perfeita” para a sustentabilidade financeira do setor.
Ainda assim, Romeu lembra: a saúde é um setor resiliente. As pessoas envelhecem, precisam de cuidado e a demanda não desaparece. O movimento é cíclico, e tende a se reorganizar quando o ambiente macroeconômico melhorar.
Um dos temas centrais da conversa foi a reorganização da DASA e a criação da joint venture hospitalar com o Grupo Américas. O movimento ilustra uma tendência importante: separar negócios distintos (diagnóstico e hospital) para ganhar foco, eficiência e governança adequada.
A lógica por trás desses modelos é clara: reduzir atritos, aumentar previsibilidade, melhorar eficiência e alinhar interesses em um setor historicamente marcado por conflitos entre quem presta e quem paga pelo serviço.
Health techs: do hype à maturidade
A pandemia acelerou brutalmente o surgimento de health techs no Brasil. Entre 2020 e 2022, capital era abundante, valuations estavam inflados e muitas startups nasceram sem modelo financeiro sustentável.
Hoje, o cenário é outro:
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- captar investimento está mais difícil;
- investidores estão mais criteriosos;
- disciplina financeira voltou ao centro do jogo.
Isso não significa menos inovação, pelo contrário. Segundo Romeu, há uma nova geração de empreendedores extremamente qualificada, com formação técnica sólida, visão global e capacidade de resolver problemas reais da saúde brasileira.
A IA já começou a transformar a saúde de forma prática e silenciosa. Alguns exemplos citados por Romeu: Revisão automática de laudos, reduzindo erros e tempo de resposta; apoio à decisão clínica, funcionando como “copiloto” do médico; transcrição e sumarização de consultas, liberando o profissional para focar no paciente; análise automatizada de exames complexos, como EEGs e estudos do sono.
O ponto-chave não é substituir médicos, mas aumentar qualidade, segurança e eficiência, especialmente em um sistema pressionado por custos e escassez de especialistas.
Saúde phygital e IoT: quando o digital encontra o físico
Um dos projetos mais promissores apresentados é o modelo de saúde phygital, que combina:
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- consulta presencial,
- telemedicina,
- dispositivos médicos conectados (IoT),
- inteligência artificial.
Nesse modelo, profissionais de enfermagem coletam sinais vitais e exames com dispositivos inteligentes (pressão, oximetria, ECG, ausculta digital, imagens), que são automaticamente integrados à plataforma. Quando o médico entra na consulta, muitas vezes remotamente, todas as informações já estão organizadas.
O impacto é direto:
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- mais resolutividade;
- menos encaminhamentos desnecessários;
- menos idas à emergência;
- redução de custos;
- maior acesso em regiões remotas.
Qualquer iniciativa que amplie acesso à saúde com qualidade deve ser considerada. O desafio está em equilibrar acesso, regulação, sustentabilidade e qualidade, evitando distorções, fraudes e desperdícios, problemas reais que o setor ainda enfrenta. Esse modelo já está sendo testado em empresas, farmácias, home care, áreas remotas do Brasil e até em outros países.

